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7 de jul de 2011

Batman e Wolverine no Brasil

Que a DC Comics e a Marvel Comics são grandes empresas de quadrinhos – talvez as maiores do mundo –, isso é indubitável. Mas será que tem espaço para o Brasil nesse meio? Aparentemente, sim. Dois personagens dos mais famosos dessas empresas têm histórias que se passam inteiramente aqui. Eles são o Batman, da DC, e o Wolverine, da Marvel. Este possui dois romances gráficos localizados no Brasil: “Rio de Sangue” (originalmente “Black Rio”; lançado nos Estados Unidos em 1998 e no Brasil em 2001) e “Saudade” (cujo lançamento europeu - que foi o primeiro - data de 2006, lançado por aqui no ano seguinte). Já o homem morcego tem apenas uma história ambientada no país, lançada em quatro volumes: “O Idiota” (“The Idiot Root”; chegava às bancas dos Estados Unidos em 1991 e dois anos mais tarde no Brasil).
Nessas histórias, o Brasil é representado por alguns símbolos já bem difundidos, como o carnaval e a Floresta Amazônica. Mas será que é uma visão boa do nosso país? Talvez não seja ruim, mas nota-se que algumas vezes é errada.


Em “O Idiota”, lançada por aqui com a capa acima, Batman vem ao Brasil com um objetivo bem centrado: capturar a vilã Dama de Copas, que foi para o Rio de Janeiro após fugir da prisão de Gotham City, pouco mais de um ano antes. Como o próprio protagonista diz: “O Rio é um bom lugar para desaparecer...” Uma outra frase do homem morcego que chama muito a atenção é: “A cidade [Rio de Janeiro] nunca dorme. Como Gotham, só que mais quente.” Essa afirmação é, de certa forma, confirmada através das ilustrações: o Rio é desenhado quase da mesma forma fria e sombria que a cidade do super herói, só que em vários momentos há casas antigas, algumas até parecendo ter saído de um filme de faroeste. Nos poucos quadrinhos em que aparecem pessoas comuns da cidade, nota-se a presença de traficantes, boêmios e mendigos pelas ruas. Mas Batman não fica o tempo todo no Rio de Janeiro. Ele também vai à Amazônia, para combater o vilão principal da trama, que se auto-intitula O Idiota. Um templo maia ilustra essa passagem. Sim, um templo maia! No meio da Floresta Amazônica. E nem ao menos o personagem brasileiro que acompanha Batman, chamado Zeno, estranha essa situação. Zeno é um índio que nasceu em uma vila no interior da selva amazônica. É curioso que ele se vista como caubói no Rio de Janeiro. Ao viajar com o super herói para a Amazônia, o avião sofre um acidente e deduzimos que suas roupas se queimam, porque, depois, ele aparece apenas com uma espécie de tanga de coloração natural: pronto, a imagem estrangeira do índio brasileiro está formada em Zeno. Ao longo da trama, Batman se depara com crianças que vivem nas ruas e que, posteriormente, são atacadas pelo vilão. A violência contra as crianças é presença constante na história.


Esse fato é também notável na história “Saudade”, protagonizada pelo Wolverine, pseudônimo de Logan, mutante que faz parte dos X-Men. Três crianças são perseguidas por capangas do vilão da história, Khurra Daizonest, também mutante, que se passa por pai de santo. O objetivo dos capangas era capturar uma das crianças, que também não podia deixar de ser um mutante. Nota-se a violência contra elas no poderoso arsenal que o grande número de bandidos carrega. E ao conseguir seu objetivo, o grupo assassina a sangue frio as duas crianças das quais não iria “precisar”. A que sobrou é levada ao vilão para que este pudesse absorver suas energias vitais e aumentar seu poder, matando-a também. Antes disso, o protagonista já havia encontrado os capangas espancando os jovens. A cidade onde a trama se passa é Fortaleza, aonde Logan chega para passar as férias. Ela é representada com uma favela à beira-mar e a mansão do vilão isolada a alguns quilômetros da orla. Afora a praia, a favela e a mansão, o restante do cenário é uma grande selva. As casas por onde Wolverine passa são grandes ruínas que formam quase uma cidade fantasma. Parece tudo muito pobre e perigoso. Os carros retratados são velhos e mal cuidados, e não variam de Fuscas, caminhonetes rurais e jipes. A estadia de Logan em Fortaleza é marcada por muita violência, injustiça social e uma festa com muita música, dança e oferendas colocadas no mar, apesar de não ser explicitado qual é o objetivo da comemoração.


Festa é o que não falta na outra história de Wolverine, “Rio de Sangue”. Essa se passa na cidade do Rio de Janeiro, onde o super herói também vai passar as férias, na época do carnaval. Logan encontra ali um velho amigo que conheceu em sua última vinda ao Rio: o detetive Antônio Vargas, que desta vez está investigando uma série de assassinatos misteriosos. É notável como o Brasil é visto como um país que está sempre em festa, o que é constatado por uma frase do protagonista logo antes de sair do escritório do detetive para ajudá-lo em sua investigação: “O carnaval pode esperar. Tenho certeza que a festa estará aqui quando eu voltar” (tradução livre). E ele volta. E descreve o carnaval da seguinte maneira: “A coisa mais inteligente que você pode fazer no carnaval é relaxar e gozar. Então eu o faço. E o faço bem. Como qualquer coisa na vida, é para testar seus próprios limites” (também é uma tradução livre). É muito importante notar que dentre as três histórias citadas, essa é talvez a que melhor retrata o Brasil. Provavelmente por ser a que menos mostra o país e seus outros estereótipos. Curiosamente, tanto na capa brasileira da revista, quanto na capa norteamericana, Wolverine está com seu uniforme de X-Men. Mas em nenhum momento da trama ele usa essa roupa. Outra coisa estranha na capa estadunidense é que o personagem está no meio da selva, sendo que na história ele não chega perto nem de um bosque.

Nas três tramas, o Brasil é, naturalmente, apenas o plano de fundo. Um cenário diferente do normal para ambientar a história, para sair de Gotham City e Nova Iorque. E é interessante o fato de que, mesmo tendo sido feitas em épocas diferentes e por artistas diferentes, todas mostram mais ou menos a mesma visão do povo brasileiro, principalmente entre a história do Batman e “Saudade”, do Wolverine. Em sua maioria, não são visões ruins do país, mas há uma notável falta de conhecimento sobre o Brasil nos romances gráficos estrangeiros.
É curiosíssimo notar que em nenhum dos três títulos é mencionado o futebol. Em compensação, mulheres, carnaval, pobreza, violência, floresta... disso estão cheios. Mas a opinião do Brasil HQ sobre essas tramas é em geral boa. Talvez ótima. É muito gratificante ter o nosso país como ambiente de histórias de personagens tão importantes para os quadrinhos mundiais. E são histórias muito boas, interessantes e inteligentes. Vale a pena lê-las.

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